No próximo dia 4 de outubro, 158,7 milhões de brasileiros estarão aptos a participar de uma das maiores mobilizações democráticas do mundo. Nas Eleições Gerais de 2026, estarão em disputa os cargos de presidente da República, governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital. Mais do que escolher nomes, o processo eleitoral define quem participará, nos próximos anos, de decisões diretamente relacionadas ao desenvolvimento do país, à aplicação dos recursos públicos e ao planejamento das cidades e dos estados.
Nesse cenário, uma reflexão ganha importância: qual é o papel do conhecimento técnico na formulação das políticas públicas? A pergunta não significa defender determinada profissão, formação acadêmica, partido ou candidatura. Representar a sociedade exige uma combinação muito mais ampla de atributos, que envolve capacidade de diálogo, compromisso público, conhecimento da realidade, experiência, responsabilidade e disposição para ouvir diferentes setores. Mas é inegável que boa parte das decisões tomadas pelo poder público envolve questões cada vez mais complexas e que dependem também de informação, planejamento e conhecimento especializado.
Infraestrutura, saneamento básico, habitação, mobilidade urbana, energia, agricultura, recursos hídricos, prevenção de desastres, mudanças climáticas, planejamento urbano, gestão de resíduos e desenvolvimento econômico são exemplos de áreas nas quais decisões políticas precisam ser transformadas em soluções tecnicamente possíveis. É justamente nesse ponto que política, gestão pública e conhecimento especializado se encontram.
Estudos sobre capacidade do Estado desenvolvidos pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) destacam a importância das estruturas administrativas, dos recursos humanos e das competências existentes no poder público para a formulação e implementação das políticas públicas. A literatura sobre o tema associa a capacidade estatal, entre outros fatores, à existência de burocracias profissionalizadas, especializadas e capazes de transformar objetivos governamentais em ações concretas.
Outro campo que vem ganhando espaço é o das políticas públicas baseadas em evidências, que busca ampliar a utilização de dados, pesquisas e avaliações como subsídios às decisões governamentais.
Essa discussão ajuda a compreender por que a diversidade de conhecimentos também possui relevância nos espaços públicos. Um estudo publicado em 2024 pela Câmara dos Deputados analisou o perfil profissional e educacional dos deputados federais brasileiros entre 1988 e 2022. O levantamento mostrou que a maioria dos parlamentares das nove legislaturas analisadas possuía ensino superior e apontou advogados, empresários, professores, médicos e engenheiros entre as profissões mais comuns no período. A presença de diferentes formações no Legislativo evidencia como conhecimentos provenientes de diversas áreas da sociedade também chegam aos ambientes onde leis, orçamentos e políticas públicas são discutidos.
Para a Engenharia, essa relação com o poder público é particularmente próxima. Uma estrada começa muito antes da pavimentação. Um sistema de drenagem urbana precisa ser pensado antes da próxima temporada de chuvas. Uma política habitacional exige estudos sobre solo, infraestrutura, mobilidade e saneamento. A expansão de uma cidade demanda planejamento. Obras públicas precisam de projetos, orçamento, fiscalização, manutenção e responsabilidade técnica. O mesmo raciocínio pode ser aplicado à energia, ao meio ambiente, à agricultura e a tantas outras áreas essenciais ao desenvolvimento.
“Quando observamos os grandes desafios enfrentados pelo poder público, percebemos que muitos deles passam diretamente pela Engenharia e pela Arquitetura. Planejamento urbano, infraestrutura, mobilidade, saneamento, habitação e prevenção de riscos exigem decisões que precisam estar amparadas por conhecimento e responsabilidade técnica”, destaca o presidente da AEAT, Eng. Antônio Carlos Guimarães Silva.
A Engenharia pode oferecer uma contribuição que ultrapassa obras e projetos. A própria lógica da profissão está baseada na identificação de problemas, análise de variáveis, avaliação de riscos, desenvolvimento de alternativas, planejamento, execução, acompanhamento e correção de rumos. São princípios que também encontram espaço na administração pública.
“Na Engenharia, aprendemos que uma decisão precisa considerar suas consequências. Antes de construir, estudamos; antes de executar, planejamos; durante a execução, acompanhamos e avaliamos. Essa cultura do planejamento e da responsabilidade pode contribuir muito para o debate sobre políticas públicas e sobre o futuro das nossas cidades”, afirma Antônio Carlos Guimarães Silva.
O desafio está justamente em aproximar esses dois universos. Decisões públicas não podem ser reduzidas exclusivamente a cálculos técnicos, porque envolvem escolhas sociais, prioridades, interesses distintos e participação democrática. Ao mesmo tempo, decisões políticas precisam considerar limites técnicos, impactos econômicos, ambientais e sociais, além da viabilidade das soluções propostas. O equilíbrio entre representação democrática e conhecimento especializado é, portanto, parte importante da construção de políticas públicas consistentes.
Em 2026, a Câmara dos Deputados terá 513 cadeiras em disputa, enquanto as Assembleias Legislativas elegerão 1.035 deputados estaduais e o Distrito Federal, 24 deputados distritais. No Senado, 54 das 81 cadeiras serão renovadas. São representantes que participarão da elaboração de leis, da fiscalização do Poder Executivo e da discussão dos orçamentos públicos. As decisões tomadas nessas áreas repercutirão em praticamente todos os setores da sociedade.
Para a AEAT, estimular esse debate também faz parte do papel das entidades profissionais. A valorização da Engenharia não deve ocorrer apenas nos canteiros de obras, escritórios, universidades e empresas. Ela também passa pelo reconhecimento da importância do conhecimento técnico no debate público e pela aproximação entre profissionais, sociedade e instituições.
“Nosso objetivo não é dizer em quem as pessoas devem votar. A escolha pertence exclusivamente a cada cidadão. O que defendemos é a importância da informação. Conhecer a trajetória, as propostas, a experiência e a preparação das pessoas que pretendem ocupar funções públicas é fundamental para uma escolha consciente”, reforça o presidente da AEAT.
Por Fabrício Oliveira – MTB 57.421/SP